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Vacinação é fundamental para recuperação do emprego, dizem especialistas

Taxa de desemprego deve subir no primeiro trimestre e ritmo de recuperação dependerá de vacinação e evolução da pandemia
São Paulo – Embora venha mostrando sinais de recuperação, o mercado de trabalho terá um início de ano difícil, com expectativa de aumento da taxa de desemprego. O fim do auxílio emergencial e programas como a suspensão temporária de contratos de trabalho devem levar mais pessoas a buscar uma vaga de emprego, segundo economistas ouvidos pelo Metrópoles. Além disso, as empresas tendem a segurar contratações diante de incertezas sobre a vacinação contra a Covid-19 e a evolução da pandemia, que pode gerar mais medidas restritivas.
De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada em 29 de dezembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas desempregadas chegou a 14,1 milhões no trimestre encerrado em outubro, um aumento de 7,1% em relação ao trimestre terminado em julho. Com isso, a taxa de desocupação ficou em 14,3%, um crescimento de 0,5 ponto percentual em relação ao trimestre anterior.

Ao mesmo tempo, o país vem gerando vagas com carteira de trabalho. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o mercado de trabalho formal registrou em novembro a abertura líquida de 414.556 vagas, quinto mês consecutivo de saldo positivo.

“No segundo semestre, a gente observou uma recuperação de emprego e um fenômeno muito curioso. Ao mesmo tempo em que você vê um aumento do número de vagas, principalmente no setor de comércio e serviços, também observa um crescimento na taxa de desemprego porque mais gente passa a circular, por estar com menos medo da doença, para procurar trabalho. Você tem mais oportunidade e então faz mais sentido você procurar trabalho”, afirma Renan Pieri, professor de economia da Escola de Administração do Estado de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP).
E, neste início de ano, fatores como fim do auxílio emergencial devem pressionar ainda mais a taxa de desemprego. “O benefício segurou alguns brasileiros fora do mercado de trabalho porque essas pessoas estavam conseguindo se manter durante a pandemia. Nesse início de ano, haverá uma pressão maior da força de trabalho no mercado, a gente deve ver um aumento significativo da taxa de desemprego nos primeiros meses”, diz Samuel Durso, economista e professor da Faculdade Fipecafi.

Pieri acrescenta ainda que programas de redução de jornada e suspensão de contratos de trabalho, com garantia de emprego para os meses seguintes, também seguraram o avanço do desemprego por um tempo. “Isso deu um fôlego para o mercado de trabalho. A taxa de desemprego aumentou, mas o programa segurou um crescimento ainda maior”, afirma.

Sem esses incentivos do governo, diz o professor da FGV, a tendência é de aumento do número de pessoas em busca de uma vaga. “Nos próximos meses, com encerramento do período de garantia de emprego para o trabalhador com contrato suspenso, acreditamos que vai haver um crescimento expressivo no número de pessoas desempregadas. Se não tivesse o programa, esta taxa estaria acima dos 20%”, avalia.
Para os especialistas, a vacinação será fundamental para a recuperação do emprego ao longo do ano. “Se a gente conseguir imunizar uma quantidade expressiva de pessoas o quanto antes, a economia volta a funcionar de forma mais rápida”, afirma Pieri.
Para Durso, em um cenário mais pessimista, a taxa de desemprego pode alcançar 16% no início do ano. “Mas no segundo semestre, se houver vacinação, é possível ter uma redução para perto dos 12% – número próximo do pré-pandemia”, estima o professor da Fipecafi, que vê uma retomada mais significativa a partir do segundo trimestre, caso ocorra uma imunização no primeiro trimestre.

“Por isso, o desemprego tende a aumentar no primeiro trimestre todo. Talvez, o governo seja pressionado a manter algum tipo de política assistencialista para alguma parcela da população com dificuldade de realocação no mercado. Mas se a vacinação acontecer no primeiro trimestre — e tudo indica que isso vai acontecer –, as empresas talvez esperem um pouco mais para criar emprego e realizar grandes expansões”, afirma.
Pieri lembra ainda que a pandemia não retraiu e o número de infectados e óbitos por Covid-19 continua aumentando. Se medidas restritivas, como as adotadas pelo Governo de São Paulo no final de 2020, forem uma tendência para o primeiro trimestre deste ano, pode haver novamente uma redução expressiva no número de vagas. “As empresas, ao contrário do final de março, não têm uma perspectiva que o fechamento da economia seja rápido. Então, elas estão menos dispostas a tomar o risco de manter os funcionários mesmo tendo prejuízo”, avalia o professor da FGV.

Mesmo com uma retomada, ressaltam os economistas, o Brasil deve seguir com dificuldades no mercado de trabalho. “A recuperação não deve ser tão rápida. O país deve encerrar 2021 com indicadores próximos ao pré-pandemia, que já não eram muito bons, mas é um cenário mais realista”, diz Durso.
Pieri afirma que a retomada de emprego nesse segundo semestre de 2020 foi muito positiva, mas ficou muito aquém do necessário para repor os postos que foram perdidos no primeiro semestre. “A gente começa 2021 com uma quantidade bem menor de vagas de trabalho que tinha no começo de 2020. A tal da recuperação em V não aconteceu. É um V com uma perna quebrada, a perna direita”, diz o professor, em referência a declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes.
O economista lembra que o país, antes da pandemia, ainda se recuperava da até então maior crise de sua história, entre 2015 e 2016, seguida de dois anos de crescimento fraco do emprego. “Apenas em 2019 você começa a ter alguma retomada e ainda que puxado pelo informal. Então, a pandemia encontrou a gente em um cenário muito lento. Vamos demorar muitos anos para voltar ao estoque de emprego que a gente tinha antes. E vamos precisar de políticas públicas para lidar com a situação, treinamento, programa de assistência. Vamos precisar desenhar novas políticas públicas para enfrentar a pandemia da Covid-19”, afirma.

Fonte*Portal Metrópoles

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