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Selic ainda é instrumento para muita polêmica


A nova rebaixa da Selic a um mínimo histórico de 2,25% ao ano repôs a taxa de juros no centro dos debates econômicos do Brasil, em tempos de pandemia, recessão e aversão ao risco. Mercado financeiro e setor produtivo se dividem sobre a efetividade da política do Banco Central, que já sinalizou a possibilidade de novo corte na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). Enquanto alguns defendem reduções mais severas, outros avaliam que a medida pode ser inócua e há quem tema os efeitos no câmbio.


Contador com 18 anos de experiência no mercado financeiro e consultoria contábil/financeira, o professor da Faculdade Fipecafi, Marcelo Cambria, diz ao Jornal do Commercio que, em um cenário de normalidade, a Selic poderia promover maior utilização de recursos na economia real, desinvestimento e maior disposição ao risco. Mas, não em tempos de pandemia. “No contexto atual, a medida promove efeito baixo. Vale lembrar que, nos últimos anos, a redução abrupta não ocasionou o consumo devido. Além das crises, não houve tempo para voltarmos a crescer em taxas como as da década passada”, justificou.  


A tendência de mercado, segundo o especialista, é suprir a demanda das empresas por acesso a crédito barato, diante da capacidade de pagamento dos empreendedores. “Nos últimos dias, foram apresentadas propostas para levar o crédito a uma taxa conveniente. Assim, os pequenos e médios empresários teriam esse fôlego financeiro para abrir lojas e contribuir para que haja uma retomada, mas ainda de uma forma bastante modesta, aguardando a evolução da doença no Brasil”, comentou. 


O professor da Fipecafi espera que a Selic se mantenha nos 2,25% atuais ou que vá no máximo para 2%, pois haveria pouco espaço para quedas. Marcelo Cambria lembra que o BC já antecipou, no texto da ata da reunião, que as correções seriam apenas residuais. Esse também seria o entendimento do mercado, conforme Cambria, já que a próxima reunião está marcada apenas para agosto.  


Investimento e câmbio 
A economista-chefe da Veedha investimentos, Camila Abdelmalack, salienta ao Jornal do Commercio que o BC pode ir mais longe na próxima reunião e lembra que, diferente do desarranjo financeiro de 2008, quando o descontrole inflacionário forçou o  Brasil a elevar juros, a crise da covid-19 fez o país acompanhar o movimento global da política monetária. “Vivemos um cenário de demanda desaquecida, combinada com paralisação da oferta dos serviços. Isso levar a crer que a Selic pode encerrar 2020 até abaixo de 2% ao ano”, frisou.


A economista-chefe da Veedha investimentos diz que a Selic na mínima histórica não altera muito a disposição dos bancos emprestarem, pois o spread bancário leva em consideração custo de administração, tributos, lucro do banco e taxa de inadimplência. “O maior problema é o risco para emprestar a pessoas físicas e jurídicas. A empresa pode apresentar vários sinais de que vai quebrar e muitas pessoas que procuram o empréstimo já estão em situação de desemprego e com a renda familiar comprometida”, explicou.    


Camila Abdelmalack, recorda que a meta de inflação de 4% está bem abaixo dos 1,5% projetados pelo mercado financeiro. Em um cenário assim, prossegue ela, faz sentido reduzir juros, mas há efeitos negativos para rentistas do Tesouro Direto e para o câmbio. “Tinha investidor estrangeiro que pegava dinheiro lá fora, a um juro menor, para aplicar aqui. Com a taxa caindo, e com o risco que o país representa, não compensa mais investir em renda fixa aqui e essa procura vem caindo nos últimos dois, três anos”, explicou. 


A executiva diz que, ao se aproximar dos R$ 6, a alta do dólar assustou muitos importadores, mas ressalva que os exortadores saem ganhando, impulsionando o superávit da balança comercial e reequilibrando o câmbio, no médio prazo. “Esse fluxo que foi gerado pelas exportações contribui para que o real saísse daquele patamar tão desvalorizado. A própria desvalorização da moeda justificou uma revalorização da mesma”, salientou.   


Empreendedorismo e especulação
O setor produtivo se divide em relação à efetividade da redução dos juros básicos. O presidente do Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), Wilson Périco, defende que, na atual conjuntura econômica do Brasil, a Selic deveria ser rebaixada a zero. O dirigente argumenta que, se assim procedesse, o Copom ajudaria não apenas a reduzir a dívida interna, como também aumentar o acesso das empresas a recursos “tão necessários” para minimizar a perdas financeiras geradas pela pandemia.  


“Acho também que, com a taxa Selic ficando mais baixa, a maior parte do dinheiro do país tende a ser mais movimentada para o empreendedorismo, no lugar de ser canalizado para a pura e simples especulação no mercado financeiro. Mas, vamos esperar para ver o que acontece”, ponderou.  


Insegurança e incerteza
Mais cético, o presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), Antonio Silva, calcula que, no estágio atual da crise da covid-19, a iniciativa deve favorecer apenas a diminuição do custo da dívida pública do Executivo. O dirigente avalia que diante do atual cenário de pandemia, recessão e aversão aos riscos, o movimento do Copom terá pouca influência na dinamização da atividade econômica real do país.


“Em relação à reativação da economia, acho que não haverá o resultado que o governo federal espera. Em razão da insegurança e incerteza da situação econômica pós-pandemia, os empreendedores não se sentem confiantes para investir. Na situação atual seria mais importante o Executivo realizar investimentos em infraestrutura, gerando empregos e melhorando a confiança dos investidores. É a minha opinião”, concluiu.


Fonte/; Jornal do Commercio


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